Nudez e pipoca: pai de santo é preso por abuso sexual e estelionato
Pai de santo utilizava diagnósticos falsos e supostos rituais de cura para realizar os crimes. Ao todo, cinco vítimas realizaram denúncia
A Polícia Civil prendeu na tarde da última terça-feira (24/6) um pai de santo acusado de cometer importunação sexual durante encontros em um terreiro no município de Areiópolis, no interior de São Paulo. As vítimas eram coagidas a ficarem nuas enquanto o suspeito fazia os rituais e ainda precisavam pagar por encontro com o líder religioso.
Segundo o delegado seccional de Botucatu, Lourenço Talamonte, o centro de quimbanda, onde os crimes aconteciam, ficava na própria casa do homem, identificado como Valdecir Luiz de Oliveira, e ele agia sozinho na realização das sessões.
Rituais de abuso
O Metrópoles teve acesso aos boletins de ocorrência, em que pelo menos cinco mulheres registraram a denúncia contra o líder religioso. De acordo com os relatos, o suspeito utilizava um suposto diagnóstico de câncer como forma de convencer as vítimas a ficarem nuas e participarem de um “ritual de cura”.
Em depoimento, uma das vítimas afirmou que passou a frequentar o terreiro com o namorado que, desde o início, estranhou o comportamento de Valdecir, em especial uma prática que ele chamava de “limpeza com pipoca”. No rito, o pai de santo exigia que a vítima ficasse seminua, enquanto manuseava o alimento com as mãos no corpo da mulher, chegando a tocar em seus seios.
O casal deixou de frequentar o local após uma sessão em que o suspeito pediu para que eles tocassem nas partes íntimas um do outro em sua frente, alegando que o namorado da vítima era estéril e isso se tratava de um ritual para a cura.
Essa não foi a única vez que o líder religioso utilizou um diagnóstico falso para praticar os abusos. Para as autoridades, outra vítima alegou que o dono do terreiro disse que ela teria câncer de mama, e a coagiu a ficar nua em sua frente para que ele realizasse uma liturgia para a purificação, tocando em seus seios. Outras duas vítimas afirmaram que também foram submetidas a uma situação similar.
Estelionato religioso
Além dos abusos, o autor dos crimes realizava a cobrança de valores para a sua participação e a realização dos eventos religiosos. Segundo ele, seria uma forma de “contribuição” para o funcionamento do centro de quimbanda.
De acordo com informações obtidas pela reportagem, o pai de santo cobrava cerca de R$ 70 para pagar a energia, o gás e os alimentos usados nos rituais. Os valores podiam ser maiores para “cerimônias especiais”.
Em um dos casos, Valdecir, afirmando estar incorporado, disse a uma das vítimas que Capa Preta e Belzebu estavam pedindo para ela fazer um empréstimo a ele. Posteriormente, o suspeito enviou uma mensagem para a mulher especificando o valor do empréstimo, que seria de R$ 300.
Dias depois, os pedidos de empréstimo se repetiram, dessa vez a vítima estava presencialmente no terreiro, e o pai de santo a coagiu fazer três transferências: de R$ 800, R$ 2 mil e de R$ 600, totalizando R$ 3400. Segundo o líder, “a espiritualidade iria abrir os caminhos para fazer o pagamento”. No entanto, a vítima realizou transferências.
O que diz a defesa
Em nota ao Metrópoles, a advogada de defesa, Luciana Cristina Alves, disse que a versão do suspeito já foi apresentada, e que ao final dos trâmites legais, ficará provada a inocência de Valdecir, diante das provas que serão produzidas.
Confira a nota na íntegra:
“Na qualidade de advogada de defesa do acusado, venho a público esclarecer que o caso encontra-se em regular tramitação perante as autoridades competentes, estando atualmente em fase de investigação. A defesa recebe com serenidade a apuração dos fatos e reafirma sua absoluta confiança nas instituições, no devido processo legal, no contraditório e na ampla defesa, garantias asseguradas pela Constituição Federal.
É importante destacar que, até o presente momento, não há qualquer decisão judicial condenatória, prevalecendo integralmente o princípio constitucional da presunção de inocência. As alegações apresentadas serão devidamente esclarecidas ao longo da instrução, mediante a produção de todas as provas cabíveis. A defesa já apresentou sua versão dos fatos e documentos que entende pertinentes, colaborando com as autoridades para o completo esclarecimento da verdade.
Por respeito ao trabalho da Polícia Civil, do Ministério Público e do Poder Judiciário, bem como à própria sociedade, a defesa não fará debates sobre o mérito da investigação fora dos autos. Contudo, manifesta sua convicção de que, ao final dos trâmites legais, ficará demonstrada a inocência do investigado, diante das provas que serão produzidas e da correta apreciação dos fatos.
Por fim, a defesa solicita responsabilidade na divulgação de informações, evitando julgamentos precipitados que possam causar danos irreparáveis à honra, à imagem e à dignidade das pessoas envolvidas.”
Após a confirmação da ordem judicial, o pai de santo foi conduzido à unidade policial para registro da ocorrência e adoção das medidas legais cabíveis. Posteriormente, foi encaminhado à Central de Custódia de Botucatu, onde teve a prisão preventiva decretada por importunação sexual e estelionato. O suspeito segue à disposição da Justiça. A Polícia Civil afirmou que o centro religioso se encontra fechado.
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