Brasil

Lito pode ser 1º humano a testar remédio para mal raro

Sem entrar em detalhes, Mila Seidl afirmou que está negociando com uma empresa de biotecnologia para uso de um medicamento experimental

Por 7Segundos com Globo 31/08/2026 10h10 - Atualizado em 31/08/2026 10h10
Lito pode ser 1º humano a testar remédio para mal raro
Lito Sousa se emociona em vídeo sobre a doença que enfrenta - Foto: Reprodução

Mila Seidl, esposa de Lito Souza, afirmou ao Fantástico que está negociando com uma empresa de biotecnologia para o uso de um medicamento experimental.

O criador de conteúdo, piloto e mecânico de aviação de 59 anos revelou que foi diagnosticado com a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma enfermidade neurodegenerativa rara e progressiva que ataca o cérebro.

"Eu não posso falar o nome [da empresa] agora, mas a gente talvez consiga alguma coisa. O Lito talvez seja a primeira pessoa a testar esse medicamento. Ele já foi testado in vitro, em peixes, macacos. A gente está disposto a assumir esse risco e tentar ter um desfecho diferente", afirmou.

O que é a Doença de Creutzfeldt-Jakob

A DCJ é provocada por uma alteração na estrutura da proteína príon, presente naturalmente no cérebro humano.

Por razões ainda incertas na maioria dos casos, a proteína muda de formato e passa a funcionar como um molde, fazendo com que outras proteínas saudáveis também assumam a forma defeituosa em um efeito dominó.

"Todos nós temos essa proteína e ela está ali funcionando, inclusive com uma importância neuroprotetora", explica Tuane Vieira, professora do Instituto de Bioquímica Médica da UFRJ.

Quando a proteína se altera, os agregados danificam os neurônios e causam uma degeneração rápida do cérebro.

De acordo com o neurologista Adalberto Studart, do Hospital das Clínicas da FMUSP e da Academia Brasileira de Neurologia, a sobrevida média após os primeiros sintomas é de seis meses, raramente ultrapassando oito meses.

"Infelizmente não existe um tratamento curativo nem que aumente a sobrevida. O tratamento atual é de suporte para atenuar sintomas e dar qualidade de vida ao paciente", afirma Studart.

Causas e dados no Brasil

Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 547 casos confirmados de DCJ entre 2005 e 2021. A forma mais frequente é a espontânea, que responde por 80% a 85% dos casos e ocorre sem um fator externo ou genético identificável — tipo que acometeu Lito Sousa.

Cerca de 15% dos casos têm origem hereditária. As formas adquiridas são ainda mais raras e incluem a contaminação por procedimentos médicos ou a transmissão por consumo de carne infectada por encefalopatia espongiforme bovina, o "mal da vaca louca". O Brasil nunca registrou casos de transmissão da doença por consumo de carne bovina.

Atualmente, o teste diagnóstico de alta precisão (RT-QuIC) é realizado de forma acadêmica no laboratório da UFRJ, mas ainda não integra o fluxo regular de exames do Sistema Único de Saúde (SUS).

Busca por remédio experimental
Sem opções de tratamento convencional, a família de Lito tenta obter acesso ao uso compassivo de medicamentos em fase de testes nos Estados Unidos. A medida permite que pacientes com doenças graves e sem alternativas terapêuticas utilizem substâncias experimentais fora de ensaios clínicos formais.

A esposa do influenciador tentou incluí-lo em pesquisas internacionais em andamento nos EUA e na China, mas os critérios rigorosos dos protocolos impediram a entrada após o início dos testes.

"Não sou negacionista e sei que é uma doença grave. Mas ouvimos de médicos que, se conseguirmos acesso aos remédios do estudo, talvez seja possível pausar o avanço da doença. Por isso solicitamos apoio de órgãos como o Ministério da Saúde, Anvisa e Itamaraty", explicou Mila.

As pesquisas de novos medicamentos contam com o empenho de cientistas como Sonia Vallabh e Eric Minikel, do Broad Institute (parceria entre MIT e Harvard). O casal mudou de carreira para se dedicar à ciência após Sonia descobrir que herdou a mutação genética da DCJ de sua mãe, buscando desenvolver terapias que possam bloquear a evolução da proteína príon.