Alagoas

[Vídeo] “Minha cadeira é só um meio de transporte”, diz jovem cadeirante e faixa-roxa de jiu-jítsu

Vítor Leão, de 23 anos, já passou por 17 cirurgias e usa o esporte para fortalecer a autonomia e combater o preconceito

Por Giulianna Albuquerque com Danielle Ferro 21/09/2026 15h03 - Atualizado em 21/09/2026 15h03
[Vídeo] “Minha cadeira é só um meio de transporte”, diz jovem cadeirante e faixa-roxa de jiu-jítsu
Vítor Leão, lutador de Jiu-Jitsu PcD - Foto: Gerson BlaBla/7Segundos

No Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado nesta segunda-feira (21), a história de Vítor Leão, de 23 anos, convida a uma reflexão sobre a forma como a sociedade enxerga as pessoas com deficiência. Cadeirante, praticante de jiu-jítsu e faixa-roxa na modalidade, ele afirma que não quer ser definido pela deficiência ou visto apenas como um exemplo de superação.

Para Vítor, a cadeira de rodas faz parte da sua rotina, mas não determina quem ele é. “Eu gostaria de ser visto como um ser humano qualquer. Não é a minha cadeira que vai mostrar meu caráter. Não é a minha cadeira que vai dizer se eu sou certo, se eu sou errado. Minha cadeira é só um meio de transporte para mim.”

Ao longo da vida, o jovem já passou por 17 cirurgias. Apesar das dificuldades, ele destaca que a deficiência representa apenas uma parte de sua história e que deseja ter a mesma autonomia e liberdade de escolha que qualquer outra pessoa.

Segundo Vitor, uma das situações que mais evidenciam a necessidade de mudança na sociedade é o excesso de cuidado. Para ele, a intenção pode ser positiva, mas, quando não há espaço para que a própria pessoa decida o que consegue ou não fazer, a ajuda pode acabar limitando sua autonomia. “Muitas pessoas têm um cuidado extremo, a um nível que a gente, como pessoa com deficiência, não tem autonomia. A gente parece que é um boneco, então eles controlam a gente. A gente só queria ser uma pessoa normal, fazer tudo como uma pessoa qualquer.”

“Eu sou capaz de fazer”


Uma situação vivida por Vítor em uma rampa reforçou essa percepção. Ele contou que estava recebendo ajuda para subir uma estrutura bastante inclinada, mas, em determinado momento, percebeu que conseguiria continuar sozinho. “Eu falei: ‘Não, aqui eu consigo’. (...) Eu sou capaz de fazer. Eu sei que no começo não consegui porque a rampa é muito inclinada, mas, a partir daqui, eu consigo fazer”, disse.

Depois que pediu para seguir sozinho, Vítor conseguiu concluir o trajeto. O episódio, segundo ele, representa uma situação comum na rotina de pessoas com deficiência: a diferença entre oferecer ajuda quando ela é necessária e retirar da pessoa a possibilidade de tentar fazer algo por conta própria.

Jiu-jítsu como espaço de inclusão


Além da rotina de trabalho e dos momentos com amigos, Vítor encontrou no jiu-jítsu uma forma de convivência, competição e inclusão. A modalidade também se tornou uma maneira de enfrentar pensamentos que, segundo ele, podem surgir diante das limitações impostas pela deficiência. “Eu digo que é um cano de escape, porque a gente, como pessoa com deficiência, pensa muito: ‘Eu não sou capaz, eu não consigo, eu não posso’. E é o contrário: você consegue, é só adaptar.”

No tatame, as técnicas são adaptadas de acordo com as possibilidades de Vítor. Ele conta que o próprio professor incentiva sua autonomia durante os treinos. “Meu mestre adapta as posições para mim. Às vezes ele pede para que eu mesmo adapte. Até pela questão da minha faixa, ele pede para que eu tenha autonomia de adaptar do jeito que eu consigo.”

Para ele, a experiência mostra que a inclusão também passa por criar condições para que a pessoa com deficiência participe das atividades, sem presumir antecipadamente aquilo que ela é ou não capaz de fazer.

Um novo olhar


Questionado sobre o que gostaria de mudar na forma como a sociedade enxerga as pessoas com deficiência, Vítor aponta justamente para a ideia de incapacidade. “Eu mudaria esse pensamento de a pessoa olhar pra gente, achar que a gente é um coitado e que a gente não consegue e que a gente precisa de ajuda o tempo todo.”

Ele ressalta que pessoas com deficiência podem, sim, precisar de ajuda em determinadas situações, mas isso não significa que devam ser tratadas como incapazes. “A gente é capaz, a gente consegue fazer algo diferente.

Assista a reportagem de Danielle Ferro e Gerson Blá Blá: