Saúde

Exame de sangue para Alzheimer chega ao Brasil; veja quanto custa

O exame, que mede a proteína p-tau217, está disponível na rede privada

Por 7Segundos com G1 16/10/2026 07h07
Exame de sangue para Alzheimer chega ao Brasil; veja quanto custa
Exame de sangue para Alzheimer chega ao Brasil - Foto: Reprodução

Um exame de sangue capaz de indicar se o cérebro apresenta as marcas biológicas do Alzheimer passou a ser oferecido no Brasil a partir desta quinta-feira (15), por ora em um único serviço: o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS). O teste pode dispensar, em boa parte dos casos, a punção lombar ou o exame de imagem usados hoje para confirmar a doença.

O exame, que mede a proteína p-tau217, está disponível na rede privada por um valor estimado em cerca de R$ 3 mil. Destina-se apenas a pessoas que já têm sintomas e suspeita clínica de Alzheimer.

Um resultado positivo, sozinho, não basta para afirmar que há demência causada pela doença, e a chegada ao Sistema Único de Saúde (SUS) não tem data. O Ministério da Saúde informa que não houve demanda de avaliação do exame pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), etapa exigida para que uma tecnologia entre na rede pública.

Pista no sangue sobre o que se passa no cérebro

A p-tau217 é uma versão quimicamente modificada da proteína tau, presente nas células nervosas. Seus níveis no sangue acompanham o acúmulo de placas de beta-amiloide, uma proteína que se deposita no cérebro e é uma das marcas biológicas do Alzheimer.

O exame, portanto, não mede a demência em si, e sim um sinal indireto dessas alterações. A análise é feita em equipamento automatizado, característica que, segundo os autores de um dos principais estudos sobre o teste, favorece resultados semelhantes entre laboratórios diferentes.

O resultado pode ser positivo, negativo ou inconclusivo. Eduardo Zimmer, head de pesquisa da Unidade de Neurociência do Hospital Moinhos de Vento e responsável pela implementação do exame, estima que de 15% a 20% dos testes caiam nessa faixa intermediária. Nesses casos, o médico pode pedir um PET (tomografia por emissão de pósitrons) ou a análise do líquor, ou repetir o exame de sangue depois de 12 meses.

O desempenho da plataforma Lumipulse, da fabricante belga Fujirebio, foi avaliado em um estudo publicado em 2025 na revista Nature Medicine. A pesquisa incluiu 1.767 pessoas com sintomas cognitivos atendidas na Suécia, na Espanha e na Itália.

Os pesquisadores compararam o resultado do exame de sangue com o da análise do líquor, a punção lombar usada como referência para confirmar a alteração. Com um único ponto de corte, o valor que separa o resultado positivo do negativo, o sangue coincidiu com o líquor em 89% a 91% dos pacientes de serviços especializados. Com dois pontos de corte, a coincidência subiu para 92% a 94%, ao custo de deixar de 12% a 17% dos participantes sem resposta definida.
Zimmer afirma que a sensibilidade e a especificidade do exame passam de 90%, ou seja, que ele acerta tanto ao apontar quem tem a alteração quanto ao descartar quem não tem.
Segundo ele, a validação feita no hospital com amostras de sangue e de líquor alcançou 0,95 em uma escala em que 1 representa o acerto perfeito, e mais de mil dosagens já foram realizadas em Porto Alegre.

Esses dados locais ainda não passaram por revisão por pares: o artigo de validação será divulgado nesta semana como preprint, já submetido a uma revista científica, e a análise das mil dosagens segue em andamento.

Quem pode fazer o teste

O exame se destina à investigação da doença em sua fase clínica, quando os sintomas já apareceram, e o pedido parte do médico que acompanha o paciente. Zimmer explica que a utilidade está em dar mais segurança ao especialista que quer confirmar a causa do quadro ou que tem dúvida sobre o diagnóstico.

De acordo com a bula, o teste vale para pessoas com mais de 50 anos. Abaixo dessa idade, o significado do resultado é desconhecido, porque o exame não foi testado nesse grupo.

Renato Anghinah, professor titular de neurologia da Faculdade de Medicina do ABC e livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), afirma que o pedido só faz sentido quando a queixa já foi confirmada por testes que mostrem algum declínio, ainda que mínimo.

Esse quadro pode corresponder ao comprometimento cognitivo leve, alteração que ainda não chega a configurar demência, ou ao Alzheimer em fase inicial. Uma queixa isolada de esquecimento, sem outro sinal, não justifica o exame, diz ele.

Em quem não tem sintomas, um resultado positivo não tem significado estabelecido. Zimmer lembra que a capacidade de o teste antecipar o surgimento da doença ainda está em avaliação e que não existe terapia aprovada para essa fase, embora grandes estudos investiguem se retirar as placas de amiloide antes dos sintomas traria benefício.

O exame mostra a presença de alterações biológicas, e o diagnóstico depende de reuni-las ao quadro clínico. Anghinah compara o processo a um quebra-cabeça em que a dosagem no sangue é uma das peças, ao lado de outros exames, para fechar o diagnóstico e escolher o tratamento.