Empreendedorismo
Teto do MEI sobe para R$ 140 mil e Congresso aprova perdão de dívidas: o que muda para o pequeno negócio
Por Willian Nelson
O Congresso Nacional concluiu, em dois dias, a votação de uma das mais relevantes mudanças no regime do Microempreendedor Individual (MEI) desde a criação da categoria. O Projeto de Lei Complementar 186/2026, de iniciativa do Poder Executivo, foi aprovado pela Câmara dos Deputados na quarta-feira (14), por 461 votos a 4, e pelo Senado na quinta-feira (15), por 78 votos a nenhum. Em 16 de outubro, a matéria foi remetida à sanção presidencial. Se sancionada sem alterações, a lei elevará o teto anual de faturamento do MEI dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil a partir de 2028. O texto também permite que o microempreendedor contrate até dois empregados, em vez de apenas um, e prevê a remissão (perdão) de débitos com a União.
O que muda na lei
O projeto altera a Lei Complementar 123/2006, o Estatuto da Micro e Pequena Empresa, em quatro frentes principais:
Novo teto de receita bruta: R$ 110 mil para o ano-calendário de 2027 e R$ 140 mil em 2028, de forma gradual. Hoje, o limite é de R$ 81 mil por ano (média de R$ 6.750 por mês), valor em vigor desde 2018.
Mais empregados: o MEI poderá ter até dois empregados que recebam um salário mínimo ou o piso da categoria. A regra atual permite apenas um.
Remissão de dívidas: perdão de créditos da União de responsabilidade de MEIs constituídos até 13 de outubro de 2026. Para manter o benefício, o empreendedor deverá se manter adimplente nos seis meses seguintes à vigência da lei e desistir de eventuais ações judiciais contra a União sobre os valores.
Compras públicas: o texto autoriza o poder público a realizar licitações exclusivas para MEIs em contratações de até R$ 50 mil.
Por que o teto estava em debate
O governo justifica a mudança como recomposição monetária, e não como ampliação real do regime. Segundo a exposição de motivos, a inflação medida pelo IPCA acumulou 55,4% desde 2018, de modo que o teto de R$ 140 mil se aproximaria do valor real do limite original. O efeito da defasagem aparece nos números do Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração (DREI): entre 2025 e 2026, 101.216 MEIs foram desenquadrados por ultrapassar os R$ 81 mil e migraram automaticamente para o Simples Nacional. Pela regra vigente, quem excede o limite em até 20% (até R$ 97.200) permanece no regime até o fim do ano, paga uma guia complementar do DAS e migra para a condição de microempresa no ano seguinte. Acima desse percentual, o desenquadramento é retroativo, com cobrança de tributos, juros e multas.
Impacto para os pequenos empreendedores
Para o microempreendedor que fatura próximo ao limite, o efeito é direto: mais espaço para crescer sem abandonar o regime de recolhimento fixo mensal, de burocracia reduzida e de contribuição previdenciária simplificada. Na prática, o novo teto adia o momento em que o negócio precisa migrar para a categoria de microempresa, com cálculo de imposto sobre o faturamento e maior exigência contábil. A ampliação de um para dois empregados também mexe com a lógica de crescimento do pequeno negócio. Para o senador Paulo Paim (PT-RS), a medida tende a estimular a formalização, em um país com quase 30 milhões de pessoas na informalidade, segundo o parlamentar. A projeção do senador de geração de empregos é uma estimativa política, não um cálculo oficial anexado ao projeto.
Já a remissão de dívidas atinge um contingente expressivo. O conjunto de débitos soma cerca de R$ 12,6 bilhões, e o governo estima beneficiar 3,6 milhões de pessoas; a Agência Câmara chegou a citar quase 3 milhões de microempreendedores. A divergência de números deve ser esclarecida com a publicação do texto final.
E os médios empreendedores?
É aqui que o debate ganha complexidade. O MEI não é a única porta de entrada do Simples Nacional, e o PLP 186 não alterou os limites das demais categorias: microempresa (até R$ 360 mil por ano) e empresa de pequeno porte (até R$ 4,8 milhões). A falta de atualização desses tetos foi criticada por deputados da oposição durante a votação.
Há, portanto, um efeito de desequilíbrio que merece atenção. Com o MEI chegando a R$ 140 mil e a microempresa mantida em R$ 360 mil, a faixa intermediária entre os dois regimes fica mais estreita, enquanto os limites do Simples acima do MEI seguem sem correção. Para empresas que já estão na faixa de microempresa e pequeno porte, a lei aprovada não traz alívio direto: o ganho concentra-se no andar de baixo. Vale ressaltar que "médio empreendedor" não é categoria prevista no Simples; o termo é usado aqui para designar negócios que já superaram o MEI e ainda disputam espaço com empresas maiores.
Essa é uma avaliação analítica, e não uma conclusão consolidada. Seus efeitos concretos dependerão do comportamento do mercado e de eventuais propostas futuras de atualização dos demais tetos.
O custo fiscal e as críticas
O Poder Executivo estima renúncia de arrecadação de R$ 1,57 bilhão em 2027, R$ 3,15 bilhões em 2028 e R$ 3,38 bilhões em 2029 com o aumento do teto, o que soma cerca de R$ 8,1 bilhões até 2029. Somadas à remissão, as duas principais medidas teriam impacto estimado em aproximadamente R$ 11,1 bilhões até 2029, segundo balanço divulgado após a votação no Senado.
A anistia é o ponto que concentrou as principais críticas. Mesmo votando a favor do projeto, o senador Carlos Portinho (PL-RJ) questionou o tratamento dado a quem quitou os débitos em dia e atribuiu o acúmulo das dívidas à forma de cobrança adotada pelo governo. Em outra frente, a tramitação ocorreu a menos de duas semanas do segundo turno das eleições, como registrou a imprensa especializada, o que alimenta o debate sobre o momento político da medida. A votação quase unânime, porém, indica que o tema reuniu apoio de governo e oposição. O presidente da República tem prazo constitucional para sancionar ou vetar o texto. Até a publicação da lei no Diário Oficial da União, as regras atuais continuam valendo, e o limite de R$ 81 mil segue em vigor para 2026. Como a versão final enviada à sanção pode diferir do texto original do Executivo, empreendedores devem aguardar a publicação oficial e consultar o contador ou o Portal do Empreendedor antes de tomar decisões, como contratar um segundo funcionário ou regularizar débitos.
Sobre o blog
Willian Nelson é um profissional versátil e apaixonado pelo mundo dos negócios. Com sua formação como Bacharel em Direito, Especialista em Empreendedorismo, ele se destaca como um consultor empresarial reconhecido. Além disso, como Escritor Profissional pela UBE, ele compartilha suas ideias e experiências através de palestras inspiradoras.
À frente de um blog dedicado ao Empreendedorismo, Willian busca trazer informações valiosas e práticas para aqueles que almejam o sucesso empresarial. Seu compromisso é guiar seus leitores rumo a estratégias eficazes e caminhos promissores no mundo dos negócios.
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