Gagueira de Zé Oliveira foi tema de TCC sobre radiojornalismo alagoano
Arapiraca perde o radialista José de Oliveira Santos, o Zé Oliveira, que por quase 20 anos transformou sua gagueira em marca registrada nas manhãs da Rádio 96 FM
A morte do radialista Zé Oliveira, na noite desta quinta-feira (27), reacende a lembrança de uma pesquisa acadêmica que tornou sua trajetória caso de estudo no jornalismo alagoano. Em 2020, o comunicador foi personagem central de um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), que investigou como sua gagueira, marca registrada de mais de 15 anos no rádio de Arapiraca, foi transformada em atração humorística pela mídia local.
José de Oliveira Santos começou a trabalhar como porteiro na Rádio 96 FM de Arapiraca. Foi ali, comentando informalmente os resultados do Agremiação Sportiva Arapiraquense (ASA) nas segundas-feiras, quando não havia jornais em circulação, que chamou a atenção do radialista Alves Correia, então à frente do programa de maior audiência da emissora.
Convidado a comentar um jogo ao vivo, Zé Oliveira foi ao ar pela primeira vez diante de uma plateia que não parou mais de pedir sua participação. Dali em diante, o comentarista esportivo gago se tornou fixo nas manhãs do "Show de Notícias", com bordões como "Só-só-só um sotaquezinho, né?" e "Zé O-li-vei-raaaa!", que o acompanharam por quase duas décadas no ar.
Essa trajetória foi o ponto de partida da monografia "Só-só-só um sotaquezinho, né?": análise do caso Zé Oliveira e reflexões sobre a representação midiática da gagueira, defendida em agosto de 2020 sob orientação do professor Antonio Francisco Ribeiro de Freitas.
Assinado pelo então estudante Mácio Paulo Amaral de Lima Júnior, o trabalho investigou como o rádio arapiraquense construiu, ao longo de anos, um vínculo entre a fala gaga do radialista e o humor, examinando desde a abertura sonora de seu quadro até a repercussão de sua figura nas redes sociais da emissora.
Hoje jornalista, Mácio Amaral lembra que sua relação com Zé Oliveira remonta à infância, quando o avô sintonizava o programa todas as manhãs enquanto o neto se arrumava para o colégio. Anos depois, o radialista viraria também personagem de sua formação acadêmica:
"O Zé atravessa a minha história de uma forma muito particular. Antes de ser jornalista, sou gago, e essa conexão com ele esteve viva desde quando eu era criança. O Zé fez parte da minha infância: meu avô ouvia o programa dele todas as manhãs, enquanto eu me arrumava para ir ao colégio. Anos depois, ele acabou fazendo parte também da minha formação acadêmica, porque foi o personagem central do meu TCC, quando eu pesquisei justamente a forma com que a mídia se apropriava da gagueira dele para fazer humor e gerar audiência."
Apesar de a pesquisa colocar em discussão o modo como a imprensa e a própria rádio se apropriavam da gagueira do comunicador para provocar riso, o jornalista destaca que o contato pessoal com Zé Oliveira ficou marcado pelo afeto:
"Existe uma coisa muito especial nisso tudo: apesar da pesquisa ter trazido essa discussão sobre as problemáticas desse tratamento, o meu contato com o Zé foi sempre muito bacana. Ele sempre foi atencioso comigo, muito querido, espontâneo e aberto para conversar sobre a pesquisa. Ele tinha um carinho muito grande pelo que fazia, pelo programa e pelo rádio."
Para Mácio, a partida do radialista representa uma perda que ultrapassa os limites da polêmica acadêmica em torno da forma como sua gagueira foi explorada pelo entretenimento local:
"O Zé era uma figura muito autêntica, com um jeito muito próprio de se comunicar, e acabou deixando uma marca enorme na mídia e na comunicação de Arapiraca e do Agreste. É uma perda muito grande para quem cresceu ouvindo o rádio e, no meu caso, para alguém que teve a oportunidade de conhecer o Zé também fora dos microfones. Tenho muito orgulho de ter estudado a figura dele e eternizado essa pesquisa na Ufal."
Conhecido pela irreverência e pelo jeito espontâneo de levar informações esportivas aos ouvintes, Zé Oliveira deixa, além da lembrança afetiva de gerações de arapiraquenses, um registro acadêmico raro: a de ter sido, ele mesmo, matéria de estudo sobre o próprio ofício que exerceu por tanto tempo, e sobre o modo, nem sempre gentil, como o rádio que o consagrou também se apropriou de sua voz.
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