O peso da caneta [emagrecedora] que muda cardápios e revoluciona negócios

Saiba como a onda de emagrecimento tem afetado ou ajudado pequenos empreendimentos nesta série de reportagens

Por Tais Albino | 7Segundos

Cassiana Farias, 41 anos, é uma empresária que passou a dividir o que pede toda vez que sai para comer em um restaurante. Os pratos principais com o marido, os sanduíches com a filha. Às vezes, percebe o olhar de julgamento vindo de uma mesa ao lado ou de um garçom. Mas não deixa de sair por isso.

“Gosto da experiência como um todo, de ir a um restaurante, de sair com meus filhos. Às vezes, as pessoas olham. É chato. Podem pensar ‘tá dividindo, será que é porque não tem dinheiro?’”.

Não é o caso dela. Desde o ano passado, ela e o marido fazem tratamento com as canetas de GLP-1, as chamadas canetas emagrecedoras. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, de fevereiro deste ano, aponta que 33% dos domicílios brasileiros possuem ao menos um morador que usa ou já usou os remédios.

“Se eu pedir um prato só para mim, vou perder o dinheiro. Dá um enjoo, uma sensação de cheio e não consigo. Um prato kids é muito simples. Não há pratos sofisticados menores. Aí o jeito é dividir”.

Mas eles existem. Ou pelo menos começaram a existir.

Espetinho de camarão ao ponzu cítrico de entrada; de prato principal, um steak bovino ao molho escuro com purê de macaxeira; e frutas caramelizadas de sobremesa; tudo servido em porções menores, sem açúcar, sem glúten, sem lactose. Na última terça-feira de cada mês, o restaurante Jardim Secreto, no litoral norte de Maceió, capital de Alagoas, oferece menus como esse, especialmente para mulheres.

“É o momento que elas podem estar compartilhando esse hábito de ir ao restaurante, de poder confraternizar, mas adequado ao que estão vivendo. O objetivo é trazer essa questão da experiência com muito mais consciência, sem culpa”, conta o empresário Thiago Falcão.

Dono de self-services, hamburguerias e sushis, ele já havia percebido mudanças no consumo dos clientes por causa das busca por hábitos mais saudáveis, mas, com a chegada das canetas emagrecedoras, notou clientes compartilhando as entradas e os pratos principais. “O impacto mais forte para mim foi onde eu trabalho à la carte e com um perfil aquisitivo maior”.

Empresas que tem como público alvo clientes com o poder aquisitivo maior sentiram o impacto mais rápido, de acordo com a estrategista de marketing e pesquisadora em empreendedorismo e inovação, Thaísa Gonçalves. “Empresas que ainda não atendem esse público vão sentir de uma forma mais indireta e lenta”.

No país, 61% dos empresários do setor de bares e restaurantes já perceberam mudanças [leves e moderadas] associadas ao uso de remédios como o Ozempic e Mounjaro, segundo dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

Menos pedidos de sobremesas, de bebidas alcoólicas e de pratos principais. Mais da metade dos empresários ouvidos pela Abrasel perceberam aumento na prática de compartilhar pratos principais. Quatro em cada dez empresários dizem não ter conseguido compensar a redução no volume consumido por cliente.

Dados da Abrasel - Arte: 7Segundos


Embora o uso de medicamentos seja maior entre as classes A e B (39%), ele já alcança 30% dos lares das classes C, D e E. Ainda de acordo com a pesquisa do Instituto Locomotiva, parte disso pode ocorrer por causa do avanço do mercado paralelo; 40% dos usuários afirmam ter comprado os medicamentos sem prescrição médica.

Matheus* trabalha desde de 2023 como garçom no restaurante do padrasto no bairro do Antares, parte alta de Maceió. O local recebe no horário de almoço, principalmente, trabalhadores de oficinas, construções e lojas do entorno. Ele estima que o gasto médio dos clientes no local não passa de R$ 30.

No ano passado, Matheus* começou a notar clientes de todas as idades dividindo almoços individuais, o que antes se restringia a crianças e idosos. Ele também conta que desconfia que alguns clientes podem estar usando medicamentos clandestinos pelas conversas que escuta.

“Acho indelicado perguntar o motivo, já que meu trabalho é apenas servir o almoço, mas nas conversas que acabo escutando ou participando percebi alguns padrões. Parte comenta que faz isso como forma de economizar no almoço e outra parte fala que está usando medicamentos para perda de peso”. 

Arte: 7Segundos




Reduzir para não perder clientes


Por outro lado, a mesma pesquisa da Abrasel aponta que cresceu a procura por bebidas não alcoólicas, pratos mais leves e porções menores. Entre compensar as perdas e aproveitar a nova demanda, começaram a surgir ideias como ‘Rodízio de Mounjaro’, ‘Mini rodízio’, ‘Rodízio de Ozempic’, ‘Quarta do Mounjaro’; restaurantes e bares viralizaram com alternativas de custo mais baixo. Os chefs criaram versões reduzidas de seus pratos.

O ‘Terça Delas’, a experiência de menu saudável e reduzido do Jardim Secreto, veio a partir disso. “A gente começou a fazer esse teste às terças para entender como funcionam os novos hábitos [essa busca], para, aí sim, ter a maturidade de criar um menu específico fixo com esse propósito”, explica Thiago.




Para a pesquisadora Thaísa Gonçalves negócios que personalizam e entendem os fatores emocionais do consumo saem na frente. Clínicas de estética que divulgam procedimentos para flacidez de pele no pós-emagrecimento; tricologistas que focam em tratamentos para queda de cabelo causada pelas canetas; personais trainers que oferecem planos específicos.

“É uma nova mentalidade de consumo que foi potencializada pelo uso das canetas, mas também vem junto com as características da nova geração. A mudança de comportamento do consumidor não pode ser vista como algo ruim. Novas demandas também estão surgindo”.

Matheus* conta que é difícil cravar uma causa única da perda de receita do restaurante, mas a resposta também tem sido atrair público de alguma forma. “Para tentar compensar, aumentamos a frequência de eventos com música ao vivo para atrair mais clientes e começamos a servir espetinhos como opção ao almoço para pessoas que preferem comer apenas proteína”.

Saiba mais sobre a mudança de comportamento do consumidor na próxima matéria da série reportagens: Marmita personalizada e roupas PP: o efeito Mounjaro no consumo

Enjoo de comida gostosa?

  • As canetinhas emagrecedoras, ou medicamentos análogos de GLP-1, agem no corpo imitando hormônios “incretínicos”, produzidos naturalmente pelo intestino. É o que explica a médica endocrinologista Gabriela Maia.


    “Só que a indústria farmacêutica transformou essas medicações em moléculas que têm uma durabilidade maior. Elas têm ação no nosso intestino e no cérebro. Aumentam a produção de insulina na presença de carboidrato no intestino, lentificam o esvaziamento gástrico, avisando ao sistema nervoso que tem comida no estômago, o que dá a sensação de saciedade”.

  • Ela explica que alimentos mais gordurosos e alimentos mais doces já têm um processo de digestão naturalmente mais lento.


    “A gordura demanda um tempo maior de digestão. Por conta da medicação que também lentifica o processo, as comidas com muito açúcar, gordura, pesam muito no intestino. Então, se tiver um exagero, a pessoa sempre vai sentir enjoo, uma aversão maior a esse tipo de alimento.”

*Nome alterado para preservar a identidade do entrevistado