A personal chef Roberta Valença trabalha há cinco anos fazendo refeições na casa de clientes. Comidas práticas e congeladas para serem consumidas no dia a dia. Seguindo gosto e bolso dos clientes, além de planos alimentares passados por nutricionistas. Vez ou outra, aparece um plano que sai da cabeça do próprio cliente. Mas não tem problema. “Cada pessoa chega com uma realidade, rotina, paladar, objetivo e até relação [emocional] com a comida diferente".
Só que do ano passado para cá, ela viu um terço dos clientes mudar completamente. De hábitos, de paladar e de necessidade nutricional. Eles passaram a fazer tratamento com as chamadas canetinhas emagrecedoras, como Ozempic e Mounjaro.
E ela também precisou se moldar à nova realidade e ao aumento da procura pelo serviço. “E ainda vai aumentar mais. O diferencial vai ser o profissional que souber adaptar a alimentação de forma inteligente. Não é só reduzir comida, é saber nutrir mesmo com menos".
Na maioria das vezes, a chef trabalhava com volume de refeição pensando na saciedade. “Com esse público, é preciso pensar no valor nutricional do alimento, ajustar porções e até o tipo de preparo. Menos gordura, menos peso digestivo, mais equilíbrio. Ouvir ainda mais o cliente que usa essas medicações e muda muito o paladar, além da tolerância aos alimentos”.
A mudança, no entanto, não significou exatamente um aumento no volume de vendas.
“O que aumenta é o valor do serviço, porque é um atendimento mais personalizado. Eu diria que não é só sobre vender mais, mas sobre entregar um serviço mais estratégico e valorizado”, explica.
Para a chef Roberta Valença, as pessoas estão mais sensíveis ao excesso de açúcar, gordura e alimentos ultraprocessados. “A tendência é ter uma gastronomia mais equilibrada, natural, usar alimentos de forma mais inteligente. Ao mesmo tempo, o sabor nunca vai deixar de ser prioridade".

Medicamentos reprogramam o desejo?
Uma pesquisa da PWC, uma multinacional de consultoria e auditoria, feita com famílias norte-americanas em outubro do ano passado, mostrou que os medicamentos “reprogramam” o desejo e o consumo de forma diferentes. Enquanto houve queda no consumo de fast food e lanches, houve aumento na procura de restaurantes com serviço completo, locais onde as refeições são mais sociais e intencionais.
Houve também redução de 6% a 8% nos gastos com supermercado em lares com usuários de GLP-1 e, ao mesmo tempo, um aumento de 4% a 5% nos gastos com roupas cerca de seis meses após o início do tratamento.
Nathalia Constantino, proprietária da loja de roupas Maré de Rica, em Arapiraca, segunda maior cidade de Alagoas, sente que as clientes estão consumindo moda de uma forma nova.
“E não é só sobre tamanho, é sobre confiança. Quando a mulher se sente bem novamente, ela volta a querer se arrumar, testar estilos, valorizar mais a silhueta e até ousar”.
Embora, de fato, a demanda na loja tenha aumentado pelos tamanhos P e PP. “Já recebi clientes renovando praticamente o guarda-roupa inteiro após mudanças no corpo. Passaram a procurar modelagens diferentes, peças mais ajustadas, tamanhos menores".

A própria empresária perdeu 19 quilos. “Minha autoestima mudou completamente. Percebi não só uma necessidade de trocar praticamente o guarda-roupa inteiro, mas também uma vontade maior de me arrumar, me sentir bonita, viver novas experiências”.
O economista Marcelo Prado é diretor da empresa "Inteligência de Mercado", que produz pesquisas sobre o comportamento do consumidor e o mercado brasileiro de varejo. De acordo com ele, a mudança não chegou a alterar o ritmo do crescimento das vendas, mas gerou um estímulo adicional ao consumo.
“O que se percebe é um certo movimento de pessoas que estão emagrecendo rápido e se vendo obrigadas a voltar às lojas e adquirir roupas de tamanhos menores. A percepção dos lojistas é de que a demanda pelos tamanhos menores está aumentando, mas não a ponto de modificar as modelagens atuais”.
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A indústria foi a primeira a sentir e reagir às novas demandas causadas pela mudança de comportamento. A Nestlé, maior empresa de alimentos do mundo, lançou nos Estados Unidos, ainda em 2024, uma marca de alimentos congelados para usuários de medicamentos como Ozempic e Monjauro.
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Pizza, sanduíche e bowls, refeições com porções controladas, ricas em proteínas e fibras. “Destinadas a ser o parceiro ideal para usuários de medicamentos para perda de peso GLP-1 e consumidores focados no controle de peso”, anunciou a Nestlé à época.
Apesar de atingir primeiro a indústria, com a era da informação, as grandes mudanças de consumo não demoram mais a chegar nos pequenos e médios negócios.
“Está atingindo uma parcela relevante da população de várias idades, regiões e poder de compra. E os seus efeitos estão influenciando a demanda de consumidores para todos os perfis de loja maiores e menores, alto padrão e populares, mono e multimarcas”, explica o economista Marcelo Prado.
A estrategista de marketing e pesquisadora em empreendedorismo e inovação, Thaísa Gonçalves, explica que, mesmo com mudanças, não é momento de se alarmar.
“No caso, por exemplo, de lojas plus size, não dá pra gente falar que automaticamente que vai ter uma crise. O comportamento do consumidor é muito complexo e ele não muda de uma forma apenas linear”.
Entretanto, ela ressalta que é importante agir antes de sentir no bolso. “Empresários que têm um perfil mais de acompanhar tendências, de olhar o mercado, estão aproveitando para poder vender mais e para poder se destacar, mas a grande maioria, infelizmente, é muito reativa. Esperam ter queda nas vendas para, enfim, reagir".
Um exemplo de reação são ateliês de confecção de noivas que estão pedindo avisos prévios sobre o tratamento e até colocando cláusulas no contrato, para não precisarem gastar mais com ajustes que o combinado e não impactar o cronograma de entrega.
Como é o caso do Atelier Dourado, que soube aproveitar o novo “boom”. Conheça a história na próxima matéria da série de reportagens: A “canetinha” que fez ateliê virar máquina de lucro, empregos e autoestima
Não deixe de ler a primeira matéria da série: O peso da caneta [emagrecedora] que muda cardápios e revoluciona negócios

