A “canetinha” que fez ateliê virar máquina de lucro, empregos e autoestima

Conheça a empreendedora que soube aproveitar o 'boom' desses remédios na última matéria da série de reportagens

Por Tais Albino | 7Segundos

Em meados de outubro do ano passado, a costureira Isabella Dourado recebeu em seu ateliê, no bairro da Jatiúca, em Maceió, mais um cliente para reformar roupas após emagrecer. Até então não era algo incomum.

Fundado há cerca de 30 anos pela sogra dela, o Atelier Dourado sempre trabalhou com confecção e ajustes de peças. Há quatro anos, com Isabella à frente, o negócio se especificou na demanda dos ajustes e, diariamente, recebe um grande volume de pedidos para ajustes de peças compradas online, bainha de calças e até reformas de roupa no pós perda de peso.

Mas, diferente dos clientes tradicionais do ateliê, o de outubro do ano passado emagreceu utilizando as chamadas canetinhas emagrecedoras, como Ozempic e Mounjaro. “Começou com um, depois outro. Antes as canetinhas eram bem mais caras. Só para pessoas que realmente tinham condições. De janeiro para cá, isso mudou”.

Enquanto o preço do Mounjaro e do Ozempic caía, o Atelier Dourado também mudava. De demanda, de trabalho e de lucro. Desde janeiro, houve um crescimento de mais de 30% no público atendido. Pessoas que emagreceram 20, 30, 40 kg em pouco tempo e deixaram de caber em suas roupas.

Entre as oito costureiras que trabalham no local, três foram contratadas só neste ano para dar conta da nova demanda. Ela estima que o lucro subiu também subiu cerca de 30%. “Mesmo contratando novas costureiras, ainda sim, precisaria de mais. Sigo procurando”.


Para a analista do Sebrae, Anissélia Nunes, a urgência do consumidor gera uma mar de oportunidades e o empresário que souber “surfar” sai na frente.

“O impacto das 'canetinhas' afetou grandes players e, agora, atinge também as pequenas empresas. Diante disso, agilidade no reposicionamento e capacidade de adaptação são vitais”.

Roupas na fila de espera dos ajustes - Foto: Tais Albino


Além do aumento da procura, o que também mudou foi a quantidade de demanda por cliente no Ateliê Dourado. Eles começaram a chegar com sacolas com mais de 20, 30 peças para reformar de uma vez.

“Tenho um cliente que começou a emagrecer ano passado. No primeiro mês, trouxe roupas para ajustar. Dois meses depois, a roupa já estava folgada, tive que apertar de novo. Com três meses, a gente teve que apertar novamente. Aí eu disse: ‘Perca tudo que você tem que perder para trazer o restante’. Ele usava 50, depois 48, e agora está vestindo 42”, contou.





Isabella entendeu a importância de cativar esses clientes e cobra um preço diferente de quando trabalha com uma quantidade menor de peças para ajuste.

“O boca a boca é uma ótima propaganda. É até mais importante que o cliente chegue aqui com uma referência de uma outra pessoa que já fez ajustes aqui”.

Mesmo com o “boca a boca”, as redes sociais do Atelier Dourado comunicam claramente que o público que precisa lidar com o pós-emagrecimento tem atendimento personalizado na empresa. O primeiro vídeo fixado na página no Instagram é sobre quando vale a pena ou não ajustar uma roupa após a perda de peso.

“A peça não fica como original, mas dá para usar muito ainda. Algumas não dá para ajustar porque, realmente, às vezes o cliente vai sair no prejuízo, porque o trabalho da gente é muito maior. Eu vou cobrar pela dificuldade, pelo serviço e pelo tempo”, explica.





Personalização pode ser “a chave”, segundo especialista


A analista do Sebrae, Anissélia Nunes, aponta que esse tipo de personalização gera valor. Ela explica que o valor está diretamente ligado ao sentimento e à experiência que o empreendedor proporciona.

“Para o pequeno negócio, investir em atendimento personalizado, entender as necessidades do cliente e criar desejo são os passos fundamentais para fazer a demanda explodir”.

  • A revolução das canetinhas emagrecedoras não foi a primeira mudança de comportamento do consumidor e demanda sentida pelo ateliê. Em 2022, o negócio parou de confeccionar peças e focou nos ajustes. Antes da pandemia, a movimentação do Atelier Dourado era sazonal, dependia do período de festas, como fim de ano e São João.

  • “Com a questão da compra online, o aumento foi significativo. As pessoas tendem a comprar uma roupa que não provam, então precisam ajustar na maioria das vezes, algumas até para aumentar, enlarguecer a roupa”.

Isabella Dourado no ateliê - Foto: Tais Albino


Isabella Dourado divide o tempo entre o ateliê e o Tribunal Federal, onde é servidora pública, e diz que uma de suas paixões é ouvir que “salvou a vida de um cliente”. Ela conta que, há 12 anos, passou por uma cirurgia bariátrica e entende bem a sensação de não se sentir bem na roupa.

“Eu sei a dificuldade tanto de quem está mais cheinho, quanto de quem não está. E tento ajudar nas duas coisas. Se você está acima do peso e a roupa não deu, vamos dar um jeito, enlarguecer um pouquinho. Para mim, é uma satisfação deixar a pessoa com a autoestima mais elevada”.

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